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                       SNAPSHOTS

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Sonho sobre Snapshots, depois de adormecer com o Tractatus


1. Não nos cabe dizer ou fazer mais do que aquilo que a cena possibilita.
1. 1. Não nos cabe ver mais do que aquilo que a cena mostra.
1. 2. A totalidade da cena, se for possível, é o mundo.
1. 2. 1. Às vezes, enchemos a cena de o.n.is (objectos não identificados), i. e., ruído cénico, literatura, etc.
2. A totalidade das mortes não é suportada pelo cálculo emocional e implodirá a ciência estatística. É por isso que a Morte é só uma.
2. 1. O esquecimento e a indiferença são uma condição necessária da proficiência física.
2. 2. A sobrevivência depende do domínio da Linguagem.
3. Dito malaio: "Se queres conhecer os artistas, vai à caça e acerta, disparando de olhos fechados."
4. Falar sobre a morte, o amor, Deus (enfim sobre as coisas que realmente importam) é ir para lá dos limites da Linguagem.
4. 1. Em virtude daquilo a que chamamos felicidade, estamos sempre a ir para lá dos limites da Linguagem, mas isto é como se estivéssemos a ignorar que há paredes e que as janelas de um 10º andar estão ao nível dos passeios.
5. Os epitáfios são uma forma subtil de biografia e autobiografia. Ao falarmos da vida do outro, perspectivamos a única acção que temos como absolutamente segura e que não podemos realizar: a nossa morte.
6. Deitarmo-nos na cama do sentido impede-nos de sonhar.
                                                                                                                                                 David Antunes


Sobre SNAPSHOTS


Não sei se este espectáculo é um luto por uma morte recente. Gostaria que não o fosse. Em todo o caso serei sempre o autor dos meus erros.

Não deve haver lugar para o excessivamente particular num objecto artístico e no entanto ele é-nos íntimo. Argumentar-se-á, então, com a necessidade de medida e forma, contudo o teatro trai todas as proposições, é avesso a qualquer programa, a qualquer dado empírico que o torne numa prova; suponho que o teatro pertence ao domínio do inexprimível. A técnica deste inexprimível não é um mistério embora se prenda a cada artista de modo próprio.

É difícil ser inteiramente quando fazemos teatro e, contudo, creio que esse objectivo não é despiciendo. No teatro há que ter em conta aquilo que nos diz, a contracena, embora se trate de um jogo que não representa nenhuma espécie de aval: nem de nós sobre os outros nem dos outros sobre nós. Esta dificuldade torna tudo mais claro em termos de exigência. Só assim a palavra liberdade encontra o tom adequado.

Penso que a proposta inicial apresentada ao Director do Teatro Nacional D. Maria II, Diogo Infante - a quem dirijo palavras de reconhecimento, extensíveis a todos os seus colaboradores, pela forma empenhada e gentil como o Teatro da Garagem foi recebido nesta Casa -, que referia histórias de amor inscritas em fotografias, se tornou num repto mais alargado, de estar in media res, isto é, no meio das coisas, das coisas deste mundo. Deste estar no mundo, que é um estar no incomensurável, só podemos ter uma imagem, uma ideia, um, ou vários, SNAPSHOTS.

(SNAPSHOTS não deveria ser traduzido por "instantâneos". Há todo um labor litúrgico, um percurso de caçadores solitários, do tiro e da caça, caçada a que se escapou, que é demasiado traído pela tradução.)

Além do amor libertário invocado há uma paleta de tonalidades acrescidas que tornam o registo desta peça, menos, um memento mori, lembra-te dos mortos, do que um memento vivere, lembra-te de viver. Esta vida é a do homem pleno de vitalidade e logos (palavra), animal e político; vida que se inscreve no limiar de uma ordem livre, despreocupada dos seus eventuais limites. Uma ordem livre que orientou esta experiência do teatro que propomos.

Vivamos e comunguemos, intensamente, todas as horas que nos pertencem.

Salvé!
                                                                                                                                            Carlos J. Pessoa



A mão registou o momento. Protagoniza-o.
A mão saberá de todos estes perigos, a mão vê?
Que traz a mão de volta na imagem, a sua vertigem, o pulsar do mundo?
A mão é cega como Édipo; a sua cegueira reside na determinação com que persegue um objectivo; essa determinação leva-a a conhecer a desdita. A mão não é amputada, apenas dispara nervosa e compulsivamente. A mão agita-se e regista, tornando-se registo contínuo. Se imaginarmos uma sequência de imagens, a partir do tópico proposto, tudo à nossa volta é Manuel na lagoa com os patinhos.

Ficarás para sempre na lagoa com os patinhos Manuel? Que condenação é esta?
O amor liberta da prisão de imagens que a mão protagoniza? Ou antes pelo contrário, formaliza o aprisionamento? Pode a abertura do amor a uma narratividade, libertar do redil cúbico da imagem? Se o snapshot, enquanto redil, alimenta o amor, as histórias narradas libertam o snapshot da sua condição inicial.

No fundo ver Manuel na lagoa com os patinhos é clicá-lo, com a mão meiga, como quem corta o cordão umbilical, só que desta vez Manuel não vem ao mundo vai com o mundo. A vantagem deste ir com o mundo não é apenas o garante da liberdade de Manuel, da tutela do amor, mas do mundo como aventura. Isto pode querer dizer que Snapshots: Histórias de Amor é um convite à liberdade e à aventura.
                                                                                                                                            Carlos J. Pessoa


Sinopse


O cenário é o estúdio de Miss Mara: um ecrã negro que ocupa o fundo de cena onde são projectados materiais videográficos, o chão é uma piscina de fotografias. Todo o espaço da cena é atravessado diagonalmente por um trampolim com cerca de um metro de altura. Cada cena tem, do ponto de vista da história que conta, autonomia própria, podendo ser lida independentemente das outras. Contudo, procura-se uma ordenação, um sentido de principiar e de acabar. Às actrizes e aos actores é-lhes sugerida uma permanência como se o teatro entrasse na vida de uma forma, desejavelmente, feliz. Esta disciplina faz parte de uma técnica singular, diferenciada de artista para artista. Miss Mara anda sempre com uma máquina fotográfica e fotografa sem olhar - é a mão que vê. Veste um casaco comprido da Max Mara, género Corto Maltese. Miss Mara tenta construir possibilidades ficcionais a partir do material fotográfico e cénico disponível.